Monday, June 8, 2009

Terror no avião

     Um avião desapareceu no Atlântico, entre o Rio de Janeiro e Paris. Quando estas palavras forem publicadas talvez saibamos o que aconteceu. No momento em que escrevo, as televisões e computadores do mundo estão suspensos das notícias e da sorte de 228 pessoas. Os desastres de avião, aviões grandes ou pequenos, comerciais ou privados, mobilizam os noticiários. No fundo de nós existe o medo de voar, embora a maior parte das pessoas diga que não tem medo. Durante anos fiz parte desse grupo de gente banhada de serenidade quando entra num avião. A primeira vez que andei de avião a descolagem soube-me a montanha russa, e adorei voar. Pensei em tirar o brevet, e matriculei-me no pára-quedismo. Andei de avião como quem anda a pé, descansada.

     Linhas das Américas, de África, com cadastro. Num voo entre Lima e Cuzco, no Peru, fomos gentilmente avisados de que devido aos ventos andinos teríamos um intervalo de duas horas para a aterragem. Saímos com uma hora e meia de atraso. O piloto ia tentar acelerar. O avião estava cheio de índios que transportavam aves e outros animais a bordo. Comida viva. A desordem reinava, e dada a situação do Peru, à beira de uma guerra civil e minado pela miséria e a corrupção, o Sendero Luminoso e o narcotráfico, só os jornalistas e os autóctones andavam na Aeroperu, então denominada Aeropeor. Lia uma revista quando aterrámos no planalto do Andes, nem consultei o relógio. Nada me perturbava.

     Nos Estados Unidos apanhei uma aviãozeco a hélice de Kansas City para Cedar Rapids, no Iowa, com quatro agricultores e criadores de gado e um piloto que tinha feito o Vietname e usava um chapéu de cowboy e umas pulseiras de metal que tilintavam quando mexia nos comandos. Avisou-nos que ia ser one hell of a ride, era a estação quente, dos tornados e das tempestades; a meteorologia previa trovões e relâmpagos, rajadas fortes e turbulência. O veterano do Vietname entrou em delírio, ia ser uma aventura, ready?, cá vamos nós. E fomos. A meteorologia tinha razão. One hell of a ride. Fomos sacudidos, abanados, estremecidos, subimos, descemos, raios despedaçavam o céu de chumbo, um grandioso espectáculo de fúria natural. Visto do ar. Género “Apocalypse Now” com banda sonora do Willie Nelson. O piloto entrou em transe: Natrang, o delta do Mekong, os voos picados em helicóptero, os campos de arroz, os “chinocas”, o sangue, a selva. Nostalgia da guerra e dos bombardeamentos enquanto o avião chocalhava no vento. Um dos criadores de gado vomitou. Deixei de ouvir as pulseiras. Estava a voar com o tipo que dizia: Adoro o cheiro do napalm pela manhã. Desembarquei e agradeci a experiência. Se tinha gostado? Claro que tinha gostado. A vida era simples.

     Um problema num voo regular entre duas cidades de Espanha introduziu um medo insidioso. O avião ficou sem motores, flutuando no silêncio por segundos. Aterrámos com o aeroporto em alerta. Consegui apanhar o avião de volta e a vida nunca mais foi tão simples. O medo cresceu até se converter em fobia. Existe um clube de gente como eu, umas fazem terapia, outras tomam calmantes. Eu tomo calmantes. Com álcool. O que me leva a ser vista às sete da manhã num bar de aeroporto a pedir um copo de champanhe antes de embarcar. Dá muito bom aspecto. A receita ideal é a do escritor Martin Amis, whisky com Valium. Experimentei a mistura e fiquei tão narcotizada que perdi o passaporte, esquecido num balcão do aeroporto. Passei a uma fórmula mais suave. Nem sempre resulta. À mínima turbulência o pânico começa a subir e começo a dobrar a dose. Saio do voo em estado zombie.

     Dentro do avião, fico suspensa do ruído do trem de aterragem a recolher e a descer. Vigio o sistema eléctrico, uma luz fundida preocupa-me. Vigio a cara dos outros passageiros quando há sacudidelas, vejo-os a ler ou a escrever num computador. E fico destruída pela irracionalidade da ansiedade. Exausta. Entre terror e tédio, os únicos sentimentos que se podem experimentar num avião, dizia Orson Welles, dêem-me o tédio. Um dos terrores é a travessia do Atlântico, onde não existem pistas sobresselentes. A história do voo da Air France enche-me de angústia e compaixão pelas pessoas que iam dentro. Consigo imaginar o embarque, a alegria da viagem que acabou ou da que vai começar, consigo imaginar os derradeiros instantes. Fico doente de ansiedade sem estar a voar nem ter parentes ou amigos no voo. A situação confirma-me o terror. Um avião desaparecido no Atlântico. Não creio que exista cura para este medo. E acho que todos o têm em pequenas doses. Ou não bateriam palmas na aterragem.

Clara Ferreira Alves in Público
Filipa Pessoa 
Posted by As agripinas at 14:47:44 | Permalink | Comments (2)