Terror no avião
Um avião desapareceu no Atlântico, entre o Rio de Janeiro e Paris. Quando estas palavras forem publicadas talvez saibamos o que aconteceu. No momento em que escrevo, as televisões e computadores do mundo estão suspensos das notícias e da sorte de 228 pessoas. Os desastres de avião, aviões grandes ou pequenos, comerciais ou privados, mobilizam os noticiários. No fundo de nós existe o medo de voar, embora a maior parte das pessoas diga que não tem medo. Durante anos fiz parte desse grupo de gente banhada de serenidade quando entra num avião. A primeira vez que andei de avião a descolagem soube-me a montanha russa, e adorei voar. Pensei em tirar o brevet, e matriculei-me no pára-quedismo. Andei de avião como quem anda a pé, descansada.
Linhas das Américas, de África, com cadastro. Num voo entre Lima e Cuzco, no Peru, fomos gentilmente avisados de que devido aos ventos andinos teríamos um intervalo de duas horas para a aterragem. Saímos com uma hora e meia de atraso. O piloto ia tentar acelerar. O avião estava cheio de índios que transportavam aves e outros animais a bordo. Comida viva. A desordem reinava, e dada a situação do Peru, à beira de uma guerra civil e minado pela miséria e a corrupção, o Sendero Luminoso e o narcotráfico, só os jornalistas e os autóctones andavam na Aeroperu, então denominada Aeropeor. Lia uma revista quando aterrámos no planalto do Andes, nem consultei o relógio. Nada me perturbava.
Nos Estados Unidos apanhei uma aviãozeco a hélice de Kansas City para Cedar Rapids, no Iowa, com quatro agricultores e criadores de gado e um piloto que tinha feito o Vietname e usava um chapéu de cowboy e umas pulseiras de metal que tilintavam quando mexia nos comandos. Avisou-nos que ia ser one hell of a ride, era a estação quente, dos tornados e das tempestades; a meteorologia previa trovões e relâmpagos, rajadas fortes e turbulência. O veterano do Vietname entrou em delírio, ia ser uma aventura, ready?, cá vamos nós. E fomos. A meteorologia tinha razão. One hell of a ride. Fomos sacudidos, abanados, estremecidos, subimos, descemos, raios despedaçavam o céu de chumbo, um grandioso espectáculo de fúria natural. Visto do ar. Género “Apocalypse Now” com banda sonora do Willie Nelson. O piloto entrou em transe: Natrang, o delta do Mekong, os voos picados em helicóptero, os campos de arroz, os “chinocas”, o sangue, a selva. Nostalgia da guerra e dos bombardeamentos enquanto o avião chocalhava no vento. Um dos criadores de gado vomitou. Deixei de ouvir as pulseiras. Estava a voar com o tipo que dizia: Adoro o cheiro do napalm pela manhã. Desembarquei e agradeci a experiência. Se tinha gostado? Claro que tinha gostado. A vida era simples.
Um problema num voo regular entre duas cidades de Espanha introduziu um medo insidioso. O avião ficou sem motores, flutuando no silêncio por segundos. Aterrámos com o aeroporto em alerta. Consegui apanhar o avião de volta e a vida nunca mais foi tão simples. O medo cresceu até se converter em fobia. Existe um clube de gente como eu, umas fazem terapia, outras tomam calmantes. Eu tomo calmantes. Com álcool. O que me leva a ser vista às sete da manhã num bar de aeroporto a pedir um copo de champanhe antes de embarcar. Dá muito bom aspecto. A receita ideal é a do escritor Martin Amis, whisky com Valium. Experimentei a mistura e fiquei tão narcotizada que perdi o passaporte, esquecido num balcão do aeroporto. Passei a uma fórmula mais suave. Nem sempre resulta. À mínima turbulência o pânico começa a subir e começo a dobrar a dose. Saio do voo em estado zombie.
Dentro do avião, fico suspensa do ruído do trem de aterragem a recolher e a descer. Vigio o sistema eléctrico, uma luz fundida preocupa-me. Vigio a cara dos outros passageiros quando há sacudidelas, vejo-os a ler ou a escrever num computador. E fico destruída pela irracionalidade da ansiedade. Exausta. Entre terror e tédio, os únicos sentimentos que se podem experimentar num avião, dizia Orson Welles, dêem-me o tédio. Um dos terrores é a travessia do Atlântico, onde não existem pistas sobresselentes. A história do voo da Air France enche-me de angústia e compaixão pelas pessoas que iam dentro. Consigo imaginar o embarque, a alegria da viagem que acabou ou da que vai começar, consigo imaginar os derradeiros instantes. Fico doente de ansiedade sem estar a voar nem ter parentes ou amigos no voo. A situação confirma-me o terror. Um avião desaparecido no Atlântico. Não creio que exista cura para este medo. E acho que todos o têm em pequenas doses. Ou não bateriam palmas na aterragem.
Eu ainda faço parte do grupo de “gente banhada de serenidade quando entra no avião”,e só duas tentativas de aterragem falhadas no meio de um temporal me fazem tirar os olhos do jornal/livro/qualquer coisa que afaste o tédio da viagem!
No entanto aguardo com igual serenidade a hora de experimentar a receita do whisky com Valium!
Viver é perigoso! Morrer também!